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A crítica é real. E isso pode te ajudar.

Uma empresa paga mais de sessenta mil reais por ano, em uma única licença, só pra conseguir te mandar uma mensagem no LinkedIn.

Eu sei disso porque eu assino esse boleto.

E enquanto isso, do outro lado da tela, tem um dev que abriu o LinkedIn hoje, viu três posts de superação com foto de aeroporto, fechou o app e falou: isso aqui é teatro.

Ele tem razão. E é exatamente por isso que ele não vai receber essa mensagem.

Duas perguntas que viraram uma só

Meus kiridos, eu não vim aqui defender o LinkedIn. Eu vim falar de uma coisa que eu vejo acontecer com gente boa, gente técnica, gente que merecia estar numa vaga melhor do que a que tem hoje.

A crítica a ferramentas como o LinkedIn é verdadeira. Tem muita gente se exibindo. Tem post de demissão escrito como roteiro de novela. Tem coach transformando reunião comum em jornada do herói. Tem número sem contexto e humildade performática. Eu abro o feed e vejo isso também. Não é implicância sua.

E repara que eu falei ferramentas, no plural. O LinkedIn é um exemplo. Um exemplo grande, com força real no mercado, mas um exemplo. A mesma cena acontece com curso online, com faculdade, com certificação, com evento.

Então não é a crítica que eu quero discutir. Ela é verdadeira, isso já está resolvido.

O que eu quero discutir é que existem duas perguntas aqui, e elas não são etapas da mesma coisa. São assuntos separados.

Primeira pergunta: a crítica é real? É. Verdadeira, sem tirar nem pôr.

Segunda pergunta, que não tem nada a ver com a primeira: isso aqui pode me ajudar? Pode.

As duas respostas são sim, e nenhuma das duas responde a outra.

O que eu vejo acontecer é a primeira apagar a segunda. A pessoa responde que a crítica é real e perde a capacidade de avaliar o que aquilo poderia gerar pra ela. A segunda pergunta nem chega a ser feita.

Este texto é sobre a segunda pergunta. O LinkedIn é só onde eu tenho número na mão.

O que eu vejo de dentro do funil

Eu sou sócio de uma consultoria de tecnologia, a FCamara. Deixa eu te dar a escala do que eu estou falando.

A gente contrata em torno de sessenta pessoas de tecnologia por mês. Sessenta por mês. Passa de setecentas pessoas por ano. Squad que abre, cliente novo, projeto que cresce, gente que sai.

E o LinkedIn é o principal canal disso. Não é um entre vários. É o principal.

Não é porque a gente ache o LinkedIn agradável. É porque é lá que está o mapa. Quando abre uma vaga sênior de uma stack específica, a recrutadora não sai perguntando em grupo de WhatsApp. Ela abre a ferramenta paga, filtra por tecnologia, senioridade, tempo de casa, região, e monta a lista.

E aqui vai o detalhe que quase ninguém do lado de fora enxerga: essa ferramenta é cara. A licença de recrutamento do LinkedIn, a versão que as empresas usam de verdade, custa entre dez e doze mil dólares por ano. Por assento. E costuma ser vendida com mínimo de três assentos.

Ou seja: a gente paga uma pequena fortuna por ano pela chance de encontrar a pessoa certa. E a pessoa certa, muitas vezes, está com o perfil desatualizado desde 2021.

Não é peculiaridade da minha empresa

Você pode pensar que isso é coisa de consultoria. Contrata em volume, tem processo próprio, tudo bem.

Só que pela natureza do meu trabalho eu sento com CIO, com CTO, com head de tecnologia de empresa grande. Gente que contrata mais do que a gente. E eu já fiz essa pergunta várias vezes, por curiosidade real: de onde vem a maior parte da sua contratação?

A resposta é a mesma. LinkedIn.

E tem uma parte que surpreende quem está de fora: isso não para em júnior e pleno. Vai até coordenação, gerência, tech lead. Aquela vaga que você imagina preenchida por indicação em jantar muitas vezes começou com uma busca filtrada e um InMail.

A evidência que pesa mais

E tem um terceiro grupo que pra mim pesa mais que os outros dois.

Eu treino gente. Dou aula, mentoro, acompanho carreira de perto faz tempo. E eu vi pessoas que eu treinei entrarem em banco grande, dos maiores do país, e em e-commerce gigante, daqueles que você usou essa semana. Empresa que muita gente olha de longe achando que só entra quem já conhece alguém lá dentro.

A porta foi o LinkedIn. Perfil escrito direito, palavra certa no lugar certo, recrutador chegou, processo começou. Não foi vaga escondida, não foi jantar, foi busca filtrada.

Então isso não é teoria de quem olha o funil de cima. É gente que eu conheço pelo nome, sentada numa cadeira que ela acessou por ali.

E olha, eu tenho consciência de que eu acabei de passar três parágrafos falando dos meus números e das minhas conversas. É parecido com o que a gente critica no feed, eu sei. A diferença que eu peço que você considere é que eu não trouxe isso como currículo. Trouxe porque é a evidência que eu tenho. Sem ela, o resto do texto seria opinião.

Para de olhar como usuário. Olha como engenheiro.

O que tem aqui é um sistema com dois lados e preços muito diferentes.

Do seu lado: custo zero. Você cria o perfil, escreve o que sabe fazer, marca que está aberto a oportunidade. Zero.

Do meu lado: dezenas de milhares de reais por ano, por recrutadora, mais o tempo dela.

Com o que a gente gasta numa licença dessas em um ano, dava pra comprar dois mil cursos de trinta reais na Udemy. E ainda sobrava.

Quando um lado paga caro pra achar o outro, e o outro entra de graça, dá pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Reclamar do feed não custa nada. Estar buscável também não.

E o LinkedIn, daqui pra frente, é pano de fundo. O que eu quero mostrar é maior que ele, e começa em 1957.

1957: a mesma discussão, outra mídia

Em 1957, um escritor chamado Theodore Sturgeon estava cansado.

Ele escrevia ficção científica numa época em que ficção científica era considerada literatura de segunda categoria. Coisa de revista de banca. E passou uns vinte anos ouvindo a mesma acusação: noventa por cento da ficção científica é lixo.

E os críticos não estavam mentindo. Eles pegavam os piores exemplos do gênero, colocavam na mesa e diziam: olha, é isso que essa gente escreve. A munição era real.

A resposta do Sturgeon não foi negar. Foi ampliar.

Ele escreveu que sim, noventa por cento da ficção científica é lixo, e que noventa por cento de tudo é lixo. Carros, livros, queijos, penteados, pessoas. E que o que importa é o dez por cento que não é.

Isso ficou conhecido como Lei de Sturgeon. É a ferramenta mais direta que eu conheço pra pensar sobre plataforma, curso, comunidade e conteúdo.

Por que a segunda pergunta continua aberta

Volta comigo nas duas perguntas. A crítica é real? É.

E por que isso não fecha a segunda pergunta? Porque a crítica fala da média. E a segunda pergunta não é sobre a média. É sobre o que existe no topo e se você consegue chegar lá.

Repara em duas frases que parecem a mesma coisa e não são:

A média disso aqui é ruim.

Isso aqui é ruim.

A primeira é observação, quase sempre verdadeira em campo que ficou barato de produzir. A segunda é uma decisão, e é ela que fecha a porta.

Quando você troca uma pela outra, você não ficou mais crítico. Você deixou o pior do campo responder por você a pergunta da oportunidade.

E isso aparece em tudo quanto é lugar:

A crítica ao ensino superior em computação é real, tem professor lendo slide de 2009. Daí se conclui que faculdade não serve, e joga fora junto o que ela tem de melhor, que raramente está na aula.

A crítica ao agilismo é real, tem cerimônia demais e entrega de menos. Daí se conclui que planejar não importa.

A crítica à IA generativa é real, tem gente vendendo mágica. Daí se conclui que não vale a pena aprender a usar direito.

Nos três casos a primeira resposta está certa. E nos três a pergunta da oportunidade foi respondida por quem faz o pior daquilo.

Por que a qualidade dos cursos caiu de verdade

Pega o caso dos cursos. A queda de qualidade ali é real, e tem mecanismo.

Em 1970, o economista George Akerlof descreveu o que acontece num mercado onde o comprador não consegue avaliar a qualidade antes de comprar. O exemplo dele foi carro usado. Se de fora os carros parecem iguais, o comprador só topa pagar preço de carro médio, quem tem carro bom não vende porque não compensa, e sobra carro ruim. A média desaba sozinha, sem ninguém agir de má fé.

Curso online tem esse formato. A landing page do curso bom e a do curso ruim usam o mesmo template, a mesma seta amarela, a mesma promessa de mudança de vida. Então quando a oferta explodiu, a qualidade média caiu mesmo. É previsível.

Agora presta atenção no que esse mesmo mecanismo faz do outro lado.

Se a qualidade média cai e o preço cai junto, o seu trabalho deixa de ser encontrar. Passa a ser filtrar.

E filtrar é habilidade. Média você não controla. Filtro você controla.

Os trinta reais da Udemy

Eu tenho vinte e poucos anos de carreira em tecnologia. Eu paguei trinta reais em curso da Udemy que me ensinou coisa que eu uso até hoje. Não foi uma vez, foi várias. Trinta reais, preço de um lanche, um cara que sabia fazer gravou e eu assisti no fim de semana.

E eu também comprei curso ruim. Curso que era leitura de documentação em voz alta. Curso com título de arquitetura que entregou tutorial de framework.

As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é por serem as duas que aquilo virou uma boa fonte pra mim. Quando o custo do erro é trinta reais, você testa muito. O que te dá acesso ali é o preço baixo do erro, não a garantia de qualidade.

Agora repara em quem decidiu que curso online é ruim e parou por aí. Essa pessoa não parou de ter curso ruim na vida. Parou de ter os bons também.

O que muda na segunda-feira

No LinkedIn, para de consumir e começa a ser indexado. A recrutadora não busca por quem tem post bonito. Ela busca por palavra. Se você trabalha com Java e Kubernetes e no seu perfil está escrito “desenvolvedor de sistemas”, você não existe naquela busca. Título e competências não são vaidade, são metadado. Você não precisa postar história de superação. Eu não posto. Mas o perfil precisa dizer o que você faz, com que ferramenta e em que nível.

Em curso, inverte a pergunta. Não pergunta se o curso é bom. Pergunta se quem gravou já fez aquilo em produção, com problema real e com prazo.

E o mesmo serve pra faculdade, pra comunidade, pra evento, pra IA. A pergunta boa não é se aquilo é bom. É onde estão os dez por cento e como eu chego neles.

Não deixa uma pergunta apagar a outra

O que eu queria deixar com você não é sobre LinkedIn. É sobre não deixar uma pergunta apagar a outra.

A crítica é real? É. Isso pode te ajudar? Pode.

As duas coisas cabem na mesma cabeça ao mesmo tempo, e é difícil sustentar isso justamente porque a primeira resposta é verdadeira.

O LinkedIn pode ser cheio de teatro e ainda ser onde a maior parte das nossas contratações começa. Curso online pode ter muita coisa ruim e ainda ter sido a fonte mais barata de conhecimento que eu já tive.

Quando a gente deixa a crítica invalidar a oportunidade, a gente não fica mais esperto. Fica de fora, com uma opinião correta e uma porta a menos.

O Sturgeon passou vinte anos defendendo a ficção científica de gente que só olhava o pior do campo. A resposta dele não foi negar que o pior existia. Foi lembrar que os dez por cento eram o que importava.

Fica com os dez por cento. Deixa a média pra quem gosta de ter razão.

Se esse texto te fez repensar alguma coisa que você abandonou por uma crítica correta, me conta nos comentários qual foi.

Paz!

Referências

Theodore Sturgeon, Lei de Sturgeon (Venture Science Fiction, 1957 e 1958)

George Akerlof, “The Market for Lemons: Quality Uncertainty and the Market Mechanism” (1970)

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